VENEZA 2004

A primeira vez que fui a Veneza, no início dos anos 90, ainda não tinha despertado para a fotografia como documento e como objecto.

O meu primeiro interesse era descobrir. Desfrutar alegremente do meio que me envolvia e dos cenários em que mergulhava. Nessa altura, por ingenuidade, não pensava sequer que chegaria um tempo de querer revisitar partes do meu caminho…

A beleza é a juventude, li algures. As demais belezas, aos nossos olhos jovens, ainda não têm o valor futuro de memórias preciosas, valem somente pela estética.

Assim fui viajando bastante e o gosto pela fotografia e pelas definitivas possibilidades da imagem foi crescendo.

Em 2004, por ocasião da reabertura do Teatro La Fenice, que tinha sofrido um grande incêndio em 1996, voltei a Veneza. Desta vez também com o intuito de recolher imagens. Veneza era romântica por natureza e por definição. Ali sabia existir um tesouro de imagens poéticas que poderia tentar fixar.

Carreguei máquina, lentes e rolos. Quatro dessas fotografias integraram a minha primeira exposição Serenas Solidões, em 2006, no Teatro Baltazar Dias, Funchal. Todas as outras, à excepção de uma, que ofereci, nunca foram ampliadas ou vistas.

Veneza em novembro de 2004 começava a ficar submersa também por milhares de visitantes. Senti, como noutras situações, que ia tentar guardar aquela Veneza para depois não querer regressar.

Estas películas de Veneza são um derradeiro olhar sobre o que me pareceu ser um cenário de ópera a céu aberto – em toda a extensão do centro histórico – como se de um grande armazém de adereços de espectáculo se tratasse.

Há muitos locais onde não quero voltar porque não quero perder o deslumbramento dos primeiros encontros. Tal como não permito que a imagem da morte desfigure a lembrança que quero guardar das pessoas que amei.

Ana Gaiaz

24 abril 2026

OUTRAS SERIES